segunda-feira, 30 de junho de 2008

Salpico de poesia

É um rio entre arvoredo
E eu durmo de o sonhar
Fazem-no de segredo
Os ramos a cruzar.

E só de o sonhar fluo...
Cerca-me outro dormir
E dentro de mim flutuo
Sem pensar nem me sentir.
(Fernando Pessoa)

Ainda a propósito do tratamento de dados...

Pareceu-me relevante também regista aqui a perspectiva de David Nunan[1] no que se refere à escolha de uma determinada técnica de tratamento de dados e aos conceitos de fiabilidade e de validade.
Assim, tirei alguns apontamentos:

Segundo Nunan, a opção por uma determinada metodologia tem mais a ver com a perspectiva filosófica do investigador sobre o mundo, do que propriamente com a oposição entre o qualitativo e o quantitativo:
‘I have argued that, while the distinction between qualitative and quantitative research is simplistic in many ways, it does represent a real, not an ostensible, distinction. However, that distinction is a philosophical one which is not always reflected in the actual conduct of empirical investigation. Underpinning quantitative research is a positivistic notion that the basic function of research is to uncover facts and truths which are independent of the researcher. Qualitative researchers question the notion of an objective reality. As Rist asserts: ‘Ultimately, the issue is not research strategies, per se. Rather, the adherence to one paradigm as opposed to another predisposes one to view the world and the events within it in profoundly different ways. (1977:43)’ (p.20)

No que se refere aos conceitos de fiabilidade (reliability) e de validade (validity), Nunan considera que são fundamentais em qualquer investigação.
Para este autor, a fiabilidade refere-se à consistência dos resultados da recolha, da análise e da interpretação dos dados. A validade refere-se ao facto se aquilo que é recolhido efectivamente é pertinente para os propósitos da investigação.
Nunan afirma que tanto a fiabilidade como a validade podem ser internas e externas:
- fiabilidade interna: consistência da recolha, análise e interpretação de dados. (pergunta chave: ‘Would an independent researcher, on reanalysing the data, come to the same conclusion?’)
- fiabilidade externa: o facto de um investigador independente conseguir reproduzir o estudo e chegar a resultados semelhantes. (pergunta chave: ‘Would an independent researcher, on replicating de study, come to the same conclusion?’)
- validade interna: o facto de a investigação poder ser interpretada (interpretability of research). (pergunta chave: ‘Is the research design such that we can confidently claim that the outcomes are a result of experimental treatment?’)
- validade externa: os resultados podem ser generalizados. (pergunta chave: ‘Is the research design such that we can generalise beyond the subjects under investigation to a wider population?’)
Nunan alerta para o facto de, por vezes, a validade interna e externa entrarem em tensão, uma vez que a tentativa de fortalecer/garantir uma delas, pode levar ao enfraquecimento da outra.

Comentário:
Mais uma vez se confirma que é necessário ler diversos autores, pois as suas perspectivas complementam o nosso conhecimento. O ponto de vista de Nunan, sem entrar propriamente em conflito com as perspectivas de Afonso (ver post específico), aborda as mesmas questões de uma maneira bastante diferente.

[1] NUNAN, D. (1992). Research Methods in Language Learning. Cambridge: Cambridge University Press.

Salpico de poesia

... e os lírios nas margens de rios remotos, frios e solenes, numa tarde eterna no fundo de continentes verdadeiros.
Sem mais nada e contudo verdadeiros.
(Bernardo Soares)

Alguns aspectos sobre o tratamento de dados qualitativos e quantitativos

Na tentativa de aprofundar os meus conhecimentos sobre o tratamento de dados na investigação educacional, estive a ler o capítulo 5, Técnicas de Análise e Interpretação de Dados, do livro Investigação Naturalista em Educação, de Natércio Afonso[1].
Aqui deixo os apontamentos que resultaram dessa leitura:

O autor começa o capítulo realçando que é do tratamento de dados que deve surgir a finalidade de todo o processo investigativo: a produção de conhecimento científico. Para reforçar esta sua ideia, cita Wolwott: o problema maior do investigador ‘não é o saber como vai recolher os dados, mas sim o de imaginar o que fazer com os dados que obteve’ (p.111). [daí a importância de conhecer bem todas as possibilidades de tratamento de dados, para que na elaboração do projecto de investigação, este aspecto ficar, logo à partida, definido em função dos objectivos formulados e para que os instrumentos de recolha de dados sejam construídos de acordo com as decisões tomadas quanto à formulação da hipótese ou questão investigativa e os respectivos procedimentos de tratamento de dados]
Afonso alerta para o facto de que o sucesso de qualquer investigação, isto é, o conhecimento científico por ela produzido, depende, em grande medida, da qualidade dos dados, entendida como a relevância que estes têm no contexto da investigação.
Assim, considera que existem três critérios de que avaliam a qualidade dos dados de uma investigação: a fidedignidade [aqui sinónimo de fiabilidade], a validade e a representatividade.
Quanto à fidedignidade, considera este autor, que ela se refere à qualidade externa dos dados (os dados referem-se a informação efectivamente recolhida e não foram fabricados).
Quanto à validade, diz Afonso, que já se refere à qualidade interna (‘a pertinência em relação ao questionamento da realidade empírica resultante do design do estudo’p.113). Isto é, o critério da validade é aquele que avalia se uma dada informação produzida é relevante para o conhecimento que se pretende produzir.
Quanto à representatividade, considera o autor, que esta é o garante de que os sujeitos envolvidos e os contextos escolhidos são representativos do conjunto dos sujeitos e contextos a que a investigação se refere. Afonso considera que este último critério é particularmente sensível na análise de dados quantitativos, quando se pretende extrapolar os resultados para um âmbito mais alargado, através de testes estatísticos.
Passando para o tratamento de dados propriamente dito, o autor considera que existem três conceitos básicos para orientar a organização e exploração de dados: a descrição, a análise e a interpretação. Estes três conceitos, com algumas adaptações, podem nortear tanto o trabalho com dados quantitativos como com qualitativos.
A descrição tenta responder à questão O que é que se passa aqui?. No entanto, ela não existe no seu estado puro, uma vez que o próprio processo de recolha de dados já implica análise e interpretação. Afonso refere que Wolcott vai mais longe e considera que os dados já são teoria.
A análise tenta responder à questão Como é que as “coisas” funcionam?. Trata-se de identificar os aspectos essenciais de uma determinada situação e descrever sistematicamente as suas relações.
A interpretação tenta responder à questão O que é que isto significa?. A informação é tratada no sentido de construir um significado. Segundo Afonso, Wolcott alerta para o facto de que é fácil levar a interpretação longe demais, isto é, de resvalar para uma ‘deriva especulativa, construindo significados e identificando implicações que os dados recolhidos não sustentam’ (p.116). Um modelo relevante que se insere neste conceito é a teoria fundamentada (grounded theory) de Strauss.
Na informação quantitativa:
A informação quantitativa é expressa em valores que resultam de um processo de medição de variáveis, através do qual se atribuíram números com base em regras preestabelecidas. Estas medidas das variáveis são classificadas numa de quatro possíveis escalas: nominal (classificação da variável em diferentes categorias), ordinal (as variáveis são diferenciadas e ordenadas em função de uma dada dimensão), intervalar (a magnitude dos intervalos entre os números que representam as diferenças na variável que está a ser medida é igual), razão (tem as mesmas características da escala intervalar, no entanto, o valor zero é real, isto é, corresponde à ausência da variável).
A descrição e análise das medidas, obtidas com qualquer uma destas escalas, são realizadas através de um conjunto de procedimentos – a estatística.
A estatística descritiva descreve, através da obtenção de um número, um conjunto de características medidas numa amostra.
A inferência estatística é um processo de tirar conclusões sobre valores desconhecidos, a partir de estatísticas obtidas de medidas efectuadas numa amostra.
Os testes de hipóteses estatísticas servem para determinar se as diferenças observadas entre dois grupos relativamente a uma variável são atribuíveis a uma variável independente ou se surgiram do acaso.
As estatísticas de correlação determinam se dois conjuntos de valores estão relacionados.
As estatísticas de regressão tentam estabelecer um conjunto de valores a partir de um outro conjunto de valores.
(‘No processamento de dados quantitativos através da organização de material estatístico descritivo e da realização de testes para verificação das hipóteses de pesquisa, o dispositivo de análise e interpretação está claramente formatado e desenvolve-se numa sequência linear, a partir da recolha efectuada. (p.118).)
Na informação qualitativa:
O tratamento deste tipo de informação é mais ambíguo, moroso e reflexivo, concretizando-se numa lógica de crescimento e de aperfeiçoamento. Assim sendo, não há a formatação do dispositivo prévia ao tratamento de dados. O dispositivo de tratamento é construído e consolidado à medida que os dados são organizados e trabalhados.
O investigador deve explorar e mapear o seu material, tendo em mente os seus objectivos de pesquisa, ‘mobilizando e testando estratégias produtoras de significados relevantes, transformando progressivamente os dados em elementos constitutivos de um novo texto (o texto científico)’ (p.118). O texto científico é, por conseguinte, uma leitura que resulta do contacto entre o contexto específico e o olhar, igualmente específico, do investigador.
Assim, a descrição será o primeiro patamar do processo interpretativo, tratando-se de utilizar as palavras para produzir uma imagem mental de um determinado aspecto, a partir do ponto de vista do autor.
A análise, ou como Anselm, Strauss e Corbin lhe chamam, a estruturação conceptual encontra-se no patamar intermédio da construção interpretativa. Trata-se da organização dos dados em categorias, dando profundidade analítica ao texto descritivo.
A interpretação, ou como Anselm, Strauss e Corbin lhe chamam, a teorização traduz-se num ‘conjunto de categorias bem desenvolvidas (temas, conceitos) que são interligados sistematicamente por intermédio de proposições que estabelecem esse relacionamento, de forma a constituir uma estrutura integrada que pode ser usada para explicar e prever um fenómeno social’ (p.119).
Afonso refere seis fases nos procedimentos analíticos do material (baseado em Marshall e Rossman): a organização dos dados; a produção de categorias, temas e padrões; a codificação dos dados; a testagem das interpretação que vão surgindo; a busca de explicações alternativas; a produção do texto final.

Comentário:
Este capítulo parece-me particularmente interessante por abordar, de forma muito clara, a questão da fiabilidade e da validade. Também me parece esclarecedora a ideia de que qualquer tratamento de dados (quantitativo ou qualitativo) tem por base um destes três conceitos base – descrição, análise e interpretação.
Só há um aspecto que me deixa algumas dúvidas: o autor afirma que no tratamento de dados quantitativos, todo o processo é linear e pode ser definido antes mesmo de procedermos à recolha de dados. No tratamento de dados qualitativos, afirma que o processo está sempre em construção, sofrendo alterações conforme os dados forem tratados.
A minha dúvida é a seguinte: será que o processo de tratamento de dados quantitativos é, de facto, assim tão rígido? Se o investigador detectar que, a partir dos dados recolhidos, ainda pode aplicar técnicas anteriormente não previstas e que estas poderão reforçar a construção do conhecimento científico, estas não poderão ser aplicadas, sob pena de invalidar o estudo?
Por outro lado, não terá já o investigador de pensar, aquando da construção dos instrumentos de recolha de dados, na forma como os pretende tratar? Não terá de ter à partida algum dispositivo de tratamento de dados pensado?
Fiquei a pensar o seguinte: embora na investigação qualitativa a dinâmica na construção do dispositivo de dados seja mais significativa, para se poder adaptar ao tipo de dados que são recolhidos e cujo surgimento o investigador não podia prever, também terá de haver essa possibilidade na investigação quantitativa (p. ex. e se surgir uma variável (do tipo extraneous ou confounding) que não estava prevista? O investigador terá de ter isso em conta no processo de tratamento de dados que, inevitavelmente, irá sofrer alterações. ???).
Portanto, considero que tanto no tratamento de dados (quantitativos e/ou qualitativos), tem de haver uma planificação prévia do dispositivo de tratamento, sendo que, no caso de dados qualitativos, isso terá de ser feito numa perspectiva mais dinâmica, aberta a adaptações e alterações.



[1] AFONSO, N. (2005). Investigação Naturalista em Educação. Porto: Edições ASA.

Salpico de poesia

Trago dentro de mim um mar imenso
feito de vagas tristes
e sonhos vagos

o horizonte é uma manhã
que eu quis minha para ser eu

e para porto de abrigo escolhi uma tarde
que soubesse chorar a morte do sol
(José Rui Teixeira)

Reflexão sobre o decurso da actividade 4, ‘Natureza da investigação-acção’, inserida na temática 3, ‘A investigação-acção’

Esta actividade centrou-se no método de investigação denominado de ‘investigaçã-acção’, que se desenvolveu em torno da ideia de que, por um lado, se deve investigar a acção e, pelo outro, a acção para melhorar tem de ser o resultado de uma investigação. Daí que surja o modelo em espiral que pretende visualizar o desenvolvimento deste método de investigação.
Regressámos com este tema, à figura do professor-investigador que já tínhamos abordado na actividade um e que, nessa altura, tinha sido objecto do meu estudo mais aprofundado através de um artigo de Hammersley (ver posts ‘A figura do professor-investigador’ e ‘Ainda a propósito do professor-investigador). Também reencontramos nomes como Stenhouse e Kemmis, ambos citados no referido artigo.
Participação no fórum geral:

Esta actividade foi desenvolvida em regime individual, assente na análise da bibliografia disponibilizada pelas docentes e em outras pesquisas efectuadas.
Foi aberto um fórum informal para troca de ideias. Aí foram colocadas as ideias gerais constantes da bibliografia facultada. Mas, na sua maioria, as diferentes intervenções enriqueceram o debate com ideias resultantes de outras fontes.
Também eu tentei participar com novas perspectivas e ideias, tendo por base um artigo de Kemmis, que alguns/algumas colegas já tinham mencionado. Como encontrei um artigo do próprio autor, decidi analisá-lo e partilhar com os meus colegas, de forma sucinta, as principais ideias nele contido (ver o post ‘Uma perspectiva sobre a investigação-acção’).
Penso que, deste modo, consegui contribuir para a identificação dos aspectos centrais do tema e aprofundar as diversas linhas de debate com novas perspectivas ou reforçando ideias anteriormente avançadas pelos colegas. Tudo isso, baseado em documentação, fruto de pesquisa pessoal.


Em síntese, foi uma actividade que me permitiu aprofundar um método de investigação que já no decorrer da actividade 1 me tinha deixado curiosa – principalmente, após análise do artigo crítico de Hammersley relativamente à figura do professor-investigador. Há portanto divergências quanto à importância do papel da investigação-acção na investigação educacional.

Salpico de poesia

Poema mestiço

escrevo mediterrâneo
na serena voz do Índico

sangro norte
em coração do sul

na praia do oriente
sou areia náufraga
de nenhum mundo

hei-de
começar mais tarde

por ora sou a pegada
do passo por acontecer
(Mia Couto)